
Escrita por Ery Lopes
Imagine só a cena: o Dragão Melancólico volitando sobre a correnteza do rio e os dois jovens desafiadores se aproximando, vindos por entre as árvores da floresta. A princesa naturalmente tremia de medo. O jovem artesão também, ora essa! Entretanto, o drama do reino exigiu aquele sacrifício.
Antes que a fera avistasse os jovens, o artesão enfim revelou seu plano, de harpa na mão:
— Eu conheço uma melodia muito, mas muito melancólica. E toda vez que a toco, todos que a escutam acabam caindo em sono profundo.
— Então, acha que o dragão…
— Sim, alteza! A música tem um poder incrível!
— Eu sei disso. Li nos livros da minha tia professora.
O rapaz ficou ainda mais animado.
— Ótimo. Se tivermos fé no que fazemos, certamente faremos coisas poderosas.
— Então… — ansiosa, a princesa tentou apressar o músico.
Ele começou a tocar a sua miniatura de harpa. Apesar do modesto tamanho, o instrumento produzia um som em um volume até alto. Seus dedos estavam agora deslizando sobre as finas cordas, feitas de tripas de carneiro e crinas de cavalo, pregadas num módulo triangular de madeira.
Já desde os primeiros movimentos, a Princesa Carol reparou que de fato o rapaz era habilidoso no dedilhado e, embora a melodia fosse verdadeiramente melancólica, era agradável ouvi-lo tocar aquele instrumento.
O artesão começou a avançar em direção à margem do rio no mesmo instante em que ecoava as melancólicas notas extraídas do seu dedilhado à harpa. Não demorou e o dragão se deu conta da melodia. A fera esboçou uma reação enérgica, mas foi logo seduzido por aquela música. O Dragão Melancólico até se armou para soltar mais uma bola de fogo, contudo, o cuspe mortal acabou ficando engasgado. O encanto musical estava funcionando!
Escondida atrás de um arbusto, a Princesa Carol estava agora admirada como aquela triste melodia exercia poder sobre o terrível animal, que ficou dócil como um cãozinho adestrado, vendo e escutando o harpista friccionar as cordas da pequena e encantadora harpa.
— Que incrível! — a princesa exclamou admirada.
No entanto, ainda não havia confiança o suficiente. A fera parecia querer resistir. Foi aí que a herdeira do reino arriscou soltar a voz fazendo alguns arpejos em harmonia com as notas da harpa:
— "La-ra-lá, La-ra-lá…"
E que doce voz! O artesão estava maravilhado com o dueto. E não menos deslumbrado ficou o guardião do rio. O dragão encontrava-se agora docilmente deitado na posição transversal em relação ao rio, como que formando uma ponte sobre as águas agitadas. Era a chance de fazer a travessia.
O artesão fez sinal para a princesa vir e ela não tardou em segui-lo. Sem para de tocar a sua harpa, o artesão foi à frente da princesa, que por sua vez continuava ressoando aquele agradável "La-ra-lá". Ambos caminhavam por sobre o dragão, que estava praticamente hipnotizado por aquela melodia. Quando os dois musicistas já estavam quase chegando à outra margem do rio, ouviram o galope forte dos cavalos da guarda real surgiram da floresta. Os cavaleiros do rei se aproximaram e observaram admirados a realização da façanha dos dois jovens. Só que aquela barulheira fez com que o dragão reassumisse seu estado normal, enfurecendo-se novamente.
— Corre, alteza! — bradou o harpista.
A Princesa Carol ficou apavorada. Suas pernas pareciam não querer lhe obedecer. O jovem artesão segurou suas mãos e a puxou para o outro lado do rio. Para distrair a fera, o exército ameaçou atacar o animal com lanças. Foi o tempo que os dois jovens precisaram para escapar do dragão, correndo mata adentro.
Só aí foi que o artesão se deu conta de que, na hora de ajudar a princesa a correr, havia deixado sua harpa cair no rio, para ser levada embora pela correnteza.
— E agora? — a princesa disse, preocupada — Como faremos para atravessar o rio de volta?
O jovem músico respondeu:
— Uma coisa de cada vez. Primeiro vamos cuidar de chegar até o Oráculo e depois pensaremos na volta.