
Escrita por Antoine de Saint-Exupéry
Quando a gente quer fazer graça, mente às vezes um pouco. Não fui lá muito honesto ao lhes falar dos acendedores de lampiões. Corro o risco de dar, àqueles que não conhecem o nosso planeta, uma falsa ideia dele. Os homens ocupam, na verdade, muito pouco lugar na superfície da Terra. Se os dois bilhões de habitantes que povoam a Terra se mantivessem de pé, colados um ao outro, como para um comício, acomodar-se-iam facilmente numa praça pública de vinte milhas de comprimento por vinte de largura. Poder-se-ia ajuntar a humanidade toda na menor das ilhas do Pacífico.
As pessoas grandes não acreditarão, é claro. Elas julgam ocupar muito espaço. Imaginam-se tão importantes como os baobás. Digam-lhes pois que façam o cálculo. Elas adoram os números; ficarão contentes com isso. Mas vocês não percam tempo com esse problema de aritmética. É inútil. Vocês acreditam em mim.
O principezinho, uma vez na Terra, ficou, pois, muito surpreso de não ver ninguém. Já receara ter se enganado de planeta, quando um anel cor de lua remexeu na areia.

— Boa noite, disse o principezinho, inteiramente ao acaso.
— Boa noite, disse a serpente.
— Em que planeta me encontro? — perguntou o principezinho.
— Na Terra, na África, respondeu a serpente.
— Ah!... E não há ninguém na Terra?
— Aqui é o deserto. Não há ninguém nos desertos. A Terra é grande, disse a serpente.
O principezinho sentou-se numa pedra e ergueu os olhos para o céu:
— As estrelas são todas iluminadas... Não será para que cada um possa um dia encontrar a sua? Olha o meu planeta: está justamente em cima de nós... Mas como está longe!
— Teu planeta é belo, disse a serpente. Que vens fazer aqui?
— Tive dificuldades com uma flor, disse o príncipe.
— Ah! — exclamou a serpente.
E se calaram.
— Onde estão os homens? — repetiu enfim o principezinho. A gente está um pouco só no deserto.
— Entre os homens também, disse a serpente.
O principezinho olhou-a longamente.
— Tu és um bichinho engraçado, disse ele, fino como um dedo...
— Mas sou mais poderosa do que o dedo de um rei, disse a serpente.
O principezinho sorriu.
— Tu não és tão poderosa assim... não tens sequer umas patas... não podes sequer viajar...
— Eu posso levar-te mais longe que um navio, disse a serpente.
Ela enrolou-se na perninha do príncipe, como um bracelete de ouro:
— Aquele que eu toco, eu o devolvo à terra de onde veio, continuou a serpente. Mas tu és puro. Tu vens de uma estrela...
O principezinho não respondeu.
— Tenho pena de ti, tão fraco, nessa Terra de granito. Posso ajudar-te um dia, se tiveres muita saudade do teu planeta. Posso...
— Oh! Eu compreendi muito bem, disse o principezinho. Mas por que falas sempre por enigmas?
— Eu os resolvo todos, disse a serpente.
E calaram-se os dois.