
Escrita por Ery Lopes
De tarde, depois do almoço da vovó — sempre delicioso —, lá estavam eles na porta de entrada do Museu Municipal: Emerson, o pai e o avô, além, é claro, do restante do público, dos guias da exposição, e do curador.
— Você por aqui de novo, rapazinho? — disse o curador, com a empolgação de sempre.
— Sim! — Emerson respondeu também feliz.
— Algo em especial te trouxe de volta à nossa exposição?
— Para falar a verdade, sim. Além de querer trazer meu pai e meu avô para ver a exposição, tem uma coisa aí dentro que me chamou bastante a atenção.
O curador ficou curioso e perguntou:
— E eu posso saber o que é?
Quando Emerson se preparou para responder, o próprio curador o interrompeu dizendo:
— Não me diga agora. Entrem e lá dentro, quando estiver diante da peça especial, você poderá me dizer mais sobre ela, combinado?
— Combinado! — Emerson concordou.
Eles entraram no museu e começaram a fascinante jornada, como se estivessem viajando ao passado por aquele túnel do tempo.
O pai de Emerson acabou ficando curioso para saber que objeto ali exposto tinha despertado atenção especial no filho, especialmente porque o garoto parecia estar muito apressado para chegar até lá. Por isso o pai indagou:
— Filho, não vai nos contar qual é a coisa especial dessa exposição?
— Contar não, eu vou mostrar! — Emerson respondeu já apontando para a pirâmide envelhecida.
Seu avô não ficou nada impressionado e disse:
— Mas é só uma velha pirâmide!
Porém o menino retrucou:
— Não, vovô, as pirâmides eram coisas importantes para as pessoas de antigamente. Elas guardavam segredos e coisas valiosas ou coisas terríveis.
— Como as pragas do Egito? — disse o pai, em tom de gozação.
— Pode ser, pai. E parece ser o caso dessa daí.
— Por que está dizendo isso, filho?
Emerson fez uma cara de suspense, demorou um pouco e depois respondeu:
— Está vendo a inscrição nessa face da frente?
— Sim… — o pai confirmou, mas sem empolgação.
Emerson continuou:
— É a mesma inscrição que está na lateral de trás.
Eles rodearam completamente a pirâmide e conferiram que realmente dois lados dela continham a mesma sequência de hieróglifos. Daí o rapazinho questionou:
— Sabem o que significam esses símbolos?
— Não…
— Significam "Não abra a pirâmide".
O pai achou que o filho estava fantasiando, mas ficou surpreso quando Emerson tirou do bolso uma folha de papel com os rabiscos que havia feito durante a sua pesquisa de tradução, dos hieróglifos para o latim e do latim para o português.
— Vocês querem saber o que significam as outras inscrições laterais?
Pai e avô responderam juntos:
— Sim!
O jovenzinho então começam a fazer sua explanação sobre a tradução e como a descobriu.
— "A virtude é para os eleitos…" — seu avô repetiu — Sim. No tempo antigo o conhecimento das coisas e a sabedoria espiritual eram segredos guardados somente para as pessoas escolhidas pelos faraós. O povão não sabia de nada a não ser trabalhar.
— Ainda hoje é mais ou menos assim — o pai ironizou.
O vovô agora estava curioso e lançou a indagação:
— E o outro lado, o que diz?
Emerson voltou os olhos às anotações no papel e leu:
— "O infrator sempre paga o preço pela violação".
Seu avô resolveu decifrar o enigma:
— Isso quer dizer que dentro dessa pirâmide deve haver uma coisa bem valiosa, ou importante: uma virtude; e ninguém pode abri-la, a não ser que seja um dos escolhidos; se algum intruso abrir a pirâmide, será punido por essa violação.
— Sim! Isso faz sentido! — animou-se o garoto.
O pai de Emerson continuou sério:
— Calma, gente, isso é só uma historinha.
Mas além destes, mais alguém estava de olho nos rabiscos de Emerson: era o curador da exposição, que foi logo pegando aquele papel e falando:
— Mas vejam só isso…! Foi você, garoto, quem descobriu essas coisas?
— Sim, eu mesmo — Emerson respondeu orgulhoso.
— Ora, ora, temos um arqueólogo nato aqui! Como chegou a esse resultado?
Emerson respondeu com naturalidade:
— Ora, pela internet! Está tudo lá!
Os olhos do curador até brilhavam ao ver aqueles rabiscos, impressionados com a capacidade do garoto e, especialmente, com a tradução daquelas inscrições. Ele começou a sussurrar enquanto volteava a pirâmide, olhando-a com total atenção:
— Mas como é que eu não reparei essa pirâmide antes…? Deve haver mesmo algo muito… valioso… ou importante… dentro dela…
O curador estava tão impressionado que o pai de Emerson começou a pensar que ele não batia bem das ideias. Por isso, sugeriu:
— Por que não continuamos nossa aventura do tempo?
Emerson pensou em reclamar de volta o papel que o curador lhe tirou da mão, mas desistiu. Afinal, toda a pesquisa estava registrada em seu computador. Além do mais, ele já sabia décor o significado daquelas representações.
Então filho, pai e avô continuaram o passeio, enquanto o curador estava quase babando a pirâmide, parecendo uma criança que acaba de ganhar um belo brinquedo de presente, repetindo:
— A virtude é para os eleitos! A virtude é para os eleitos!…