
Escrita por Ery Lopes
A noite chegou.
Emerson, como sempre, estava curiosíssimos para saber que "grande missão" era aquela que o curador mencionou à tarde. No entanto, sua mãe estava assustada; ela tinha a impressão de que aquele homem era um maluco perigoso. Em sua opinião, o filho deveria ficar longe dele e esquecer essa estória de pirâmide. Mas o pai acabou se convencendo de que eles deveriam, pelo menos, se informar do que se tratava.
Depois de se falarem por telefone, o curador do museu e o pai de Emerson combinaram em todos se encontrarem no Museu Nacional às oito horas daquela noite.
E lá se vai a família inteira para o museu para enfim descobrir o que aquele maluco estava aprontando.
Quando lá chegaram, foram bem recebidos pelo anfitrião. Já no salão principal, Emerson sentiu falta das peças da exposição. Embora o lugar estivesse quase todo vazio, a pequena Emília estava encantada com o enorme prédio. Certamente, sua vontade era a de sair correndo por aquele piso tão bonito, mas sua mãe não largava a mão da menina nem por um instante. E nem o pai soltava a mão do filho.
Entrando eles numa sala mais adiante, viram enormes caixotes lacrados e Emerson logo deduziu que era ali que estavam os objetos que havia visto nas visitas feitas ao museu na semana passada.
Nessa hora foi que o curador explicou:
— Nesses caixotes estão as obras de arte e demais peças da exposição "A História da Evolução da Humanidade", que agora seguirá para o museu da Capital Federal. Quero dizer, todas, exceto uma peça…
— A pirâmide! — adivinhou Emerson.
— Exatamente! — o curador revelou, enquanto tomava posse de um baú que estava sobre um dos caixotes.
O pai do garoto então se pronunciou:
— Sim, mas o que o meu filho tem a ver com isso?
A mãe falou mais enérgica:
— Exatamente! Que missão é essa que o senhor diz ter para o nosso filho?
— O segredo das pirâmides! — disse o curador, com ar dramático — As pirâmides são peças especiais. Os nossos antepassados as construíam para esconder segredes e… guardar coisas pré-ci-o-sas…
— Acho melhor irmos embora! — sussurrou a mulher para o seu marido.
— Calma, querida — respondeu ele —, vamos ver qual é a desse cara…
O curador continuou sua narrativa, abrindo o baú e retirando dele a intrigante peça.
— Esta pirâmide certamente também é especial… Porém, como tudo o que é virtuoso, ela é reservada somente para os que são dignos, os iniciados, os e-le-i-tos!…
O pai de Emerson insistiu:
— E aonde o senhor quer chegar com isso?
Ora, até a menininha já sabia o que o curador queria. Por isso, o rapazinho foi direto ao assunto:
— O senhor quer abrir a pirâmide?
— Como não? — respondeu o curador — Na verdade, é para isso que você está aqui.
— Mas o senhor não sabe o que essas inscrições dizem? Elas dizem para não abrir a pirâmide!
— Sim, meu jovem arqueólogo, aqui diz para ninguém abri-la, a menos que seja um eleito…
A mãe intrometeu-se indagando:
— Mas o que afinal há dentro disso aí?
O curador falou tranquilamente:
— É o que nós vamos descobrir!
Ela tornou a perguntar, mostrando preocupação:
— E se for alguma coisa perigosa?… Uma maldição?…
— Bobagem! — rebateu o curador — Só há perigo para os que não são virtuosos. E vejam que criança virtuosa vocês têm, que é esse rapazinho. Ele com certeza é um eleito. Deixem-me lhes mostrar uma coisa…
O curador levantou a pirâmide para mostrar aos seus convidados a parte debaixo da peça. Na base da velha pirâmide, havia um pequeno orifício, como que um buraco de uma fechadura.
O homem anunciou:
— Nessa brecha há um mecanismo para abrir este objeto com segurança, pois se ele for aberto de modo diferente, poderá danificar o conteúdo do seu interior. Peças desse gênero eram confeccionadas sem pregos ou parafusos, apenas com encaixes precisos, que só se desencaixam mediante o acionamento de um mecanismo de desmontagem. Quero dizer: só há um jeito de abrirmos a pirâmide…
Nem preciso dizer o quanto o garoto estava entusiasmado e curioso para descobrir o que estaria guardado ali dentro, provavelmente, por muitos anos. Sua mãe estava já apavorada, seu pai continuava sério e a sua irmã estava para tomar a pirâmide das mãos do anfitrião.
O curador continuou:
— A chave de desmontagem da pirâmide está bem aqui. Minha mão não a alcança…
O pai interrompeu:
— E então você quer que o meu filho faça isso? Esqueça! Vamos embora, pessoal.
— Espere! — o curador correu tomando a frente deles — Não entendem que essa é a nossa grande chance?
Emerson perguntou:
— Grande chance de quê?
— Meu garotinho de ouro, dentro desta pirâmide deve haver uma preciosidade, quem sabe, algo que vá revolucionar a História da Humanidade, um segredo ou uma revelação que faça valer os dois milênios em que esteve trancafiada. E esta noite nós temos a oportunidade de deixar nossa contribuição para o desenvolvimento do nosso mundo…
O pai de Emerson interferiu:
— E por que será que ninguém antes pensou em abrir essa coisa?
— Ora, pai, simplesmente porque não era a hora certa e nem as pessoas eleitas para isso! Vamos! Não percamos tempo!
O curador se aproximou do menino dirigindo-lhe a pirâmide. Mas a mãe dele o agarrou enquanto falava firme:
— Não ponha a mão nisso aí, filho! Foi a curiosidade quem matou o gato!
— É a curiosidade, minha senhora — respondeu o curador com paciência —, quem motiva o progresso da Humanidade. Sem curiosidade, o homem morre em vida.
Emerson olhou para o seu pai, como que pedindo a autorização, pois o nosso pequeno curioso estava tentado a acionar a chave de desmontagem da peça. Sim, estava com medo; seu coração batia muito acelerado, mas a curiosidade era maior e ele estava disposto a arriscar. Porém, não acionaria o mecanismo sem o consentimento dos pais.
— Pegue! Abra a pirâmide! — do curador para o jovem.
O menino olhou de novo para o seu pai, que então lhe falou:
— Filho, não posso matar a curiosidade que há em você. Então, siga a sua intuição.
— Mas o que você está fazendo? — a mãe falou para o pai — Não pode deixar nosso filho fazer isso!
O curador começou a engrossar o tom de voz, mostrando ansiedade, no momento em que entrega o objeto para o menino:
— Abra a pirâmide, garoto!
Emerson segurou a pirâmide, olhou-a de todos os lados, depois fixou o olhar na base, onde estava a chave para a desmontagem da peça e ficou pensativo.
O curador insistia um tanto impaciente.
— Abra-a e vamos desvendar seu segredo! Todo segredo é para ser revelado! Abra a pirâmide!
O rapazinho olhou para sua mãe, depois para o pai, em seguida mirou bem nos olhos da sua irmãzinha.
— Abra a pirâmide! — quase gritou o responsável pelo museu.
Finalmente, Emerson se decidiu:
— Esta pirâmide não pertença a mim, nem ao senhor.
Seus pais ficaram aliviados. Emilia até bateu palmas.
O curador, por sua vez, ficou furioso e tomou o objeto das mãos de Emerson com certa violência, esbravejando:
— Me dê isso aqui, garoto! Se você não abre, eu a abrirei de qualquer jeito.
Ele pegou uma chave de fenda e começou a forçar a abertura do mecanismo.
— É melhor irmos embora! — disse a mãe do menino.
— Sim. Vamos agora! — concordou o pai.
Eles se encaminharam para a porta de saída e quando estavam quase a atravessando, ouviram um pequeno estouro. A pirâmide se espatifou toda e de dentro dela saiu apenas uma nuvem de poeira. Nada mais.
Acontece, porém, que aquela poeira explodiu bem na cara do homem que violou a peça. Ele começou a ficar sem fôlego e a tossir bem forte, falando com dificuldade:
— É uma maldição! Meu Deus, é uma maldição!
E ele foi ao chão e lá ficou caído, todo duro.