
Escrita por Monteiro Lobato
Dona Benta interrompeu a história nesse ponto. O relógio acabava de bater nove horas.
— Cama, cama, criançada!
Mas Tia Nastácia entrou com o Visconde na mão.
— Veja, sinhá — disse ela —, que judiação os meninos andam fazendo com o pobre Visconde! Fui encontrar o coitadinho apertado no torno. Veja. Ficou quadrado e todo arrebentado por dentro. Pedrinho pensa que sabugo é massa de bolo que toma o jeito que a gente quer.
Dona Benta examinou o triste sabugo científico. Estava em miserável estado, como aquelas criaturas que antigamente eram submetidas ao suplício. E mudo. Morto. Mortíssimo.
— Que pena! — exclamou a velha. — Um viscondinho tão sabido, tão delicado. E tudo por artes da Senhora Emília...
Emília protestou.
— Minhas, não, Dona Benta. Artes de Dom Quixote. Foi Dom Quixote quem fez uma aventura para cima dele e o esborrachou com a lança. Quem manda...
— Quem manda o quê, Emília?
— Quem manda o Visconde meter-se a valente? Dom Quixote estava quieto dentro do livro, com sua espada, seu escudo, sua lança no cabido. Veio o Visconde com a escada. Ora, Dom Quixote não é certo da bola. Pensou que a escada fosse alguma asa de moinho de vento e o Visconde algum mágico, o tal mágico Freston. E atirou-se lá de cima da estante em cima dele. O bobo do Visconde, em vez de desviar-se, ou aparar o golpe com um escudo, esperou que o livrão caísse e o achatasse. Por isso está quadradíssimo, espandongadíssimo. Felizmente eu salvei a ciência dele...
Dona Benta continuava contemplando os restos do Visconde.
— O remédio, Nastácia — disse por fim dirigindo-se à cozinheira —, é você arranjar outro sabugo e aproveitar a cabeça, os bracinhos e as pernas deste. Vá fazer isso já, porque me está dando aflição ver o nosso Visconde assim tão espandongado.
— Escolha um sabugo de milho vermelho — gritou Emília quando a cozinheira se retirava.
— Por quê?
— Para variar. Já estou enjoada de Visconde de sabugo de milho branco. E como dizem que o milho vermelho tem mais vitaminas que o milho branco, talvez o sabugo de milho vermelho seja mais científico que o de milho branco.
Meia hora depois Tia Nastácia reaparecia com o Visconde consertado. Ficou em ordem apesar do disparate que era aquilo da cabeça velha, dos braços velhos e das perninhas velhas enfiadas num corpo de sabugo no vinho, debulhado naquele momento. Tia Nastácia deixou uma carreira de grãos de milho que descia de alto a baixo — exatamente vinte e cinco.
Mas o Visconde reformado permanecia mudo. Por mais que o sacudissem não falava nada. Emília então fez a experiência de pingar nele o caldinho do Visconde velho. Maravilhoso efeito! A criatura arregalou os olhos, começou a mexer os braços, as pernas, e por fim murmurou: "A matéria atrai a matéria na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado da distância".
— Eu não disse? — exclamou Emília vitoriosa. — Eu não disse que o caldinho era de ciência pura? Bastou pingar neste sabugo bobo o conteúdo do vidrinho para ele ficar tão científico que até a lei da gravitação já sabe de cor, sem um erro.
Todos se assombraram com o prodígio. Tia Nastácia, de beiço derrubado, foi para a cozinha fazendo o pelo-sinal.
— Credo! A gente vê cada coisa neste mundo...
Depois de longos comentários sobre o maravilhoso acontecimento, Dona Benta retomou o fio da história.