
Escrita por Monteiro Lobato
— No dia seguinte, bem madrugada, Dom Quixote e Sancho despediram-se dos bons cabreiros e puseram-se a caminho. Depois de atravessada uma extensa floresta, saíram num campo, através do qual corria um riacho de águas límpidas. Tão formoso lhes pareceu o sítio que apearam e soltaram as cavalgaduras para que pastassem livremente.
"Amo e escudeiro sentaram-se na relva macia e abriram os alforjes, porque a ceia da véspera já estava digerida. Comeram com bom apetite. Confiado no bom gênio de Rocinante, Sancho deixou-o completamente solto — e disso veio desastre, porque, aparecendo um bando de animais, o cavalo correu a brincar com eles. Esses cavalos, porém, estavam com fome; queriam capim e não festa; de modo que receberam o feixe de ossos a coices e mordidas, escangalhando-lhe os arreios. Os donos dos animais, vendo aquilo, correram de pau em cima do intruso. Ora, além de coices, receber pauladas era muito para Rocinante. O pobre cavalo caiu por terra, derreado.
"Diante de tamanha ofensa, Dom Quixote empunhou a espada e investiu contra os arrieiros, seguido de Sancho de cacete em punho. Travou-se disputadíssima peleja, onde houve espadeiradas e pauladas a valer. Por fim, vencidos pelo número, Sancho afocinhou e Dom Quixote foi estatelar-se junto ao escangalhado Rocinante. Os arrieiros, certos de que tinham dado fim aos três, montaram precipitadamente em seus cavalos e fugiram.
"Quem primeiro voltou a si foi Sancho. Abriu os olhos. Soltou um gemido profundo.
"— Senhor Dom Quixote! Ah, Senhor Dom Quixote!...
"— Que queres de mim, amigo? — respondeu com voz debilitada o fidalgo.
"— Se me pudesse dar umas gotas do tal bálsamo de Ferrabrás... Há de ser tão bom para amassamento a pau como para ferimentos de espada.
"— Quem me dera ter aqui um bom frasco da maravilha! — exclamou o herói da Mancha. — Mas juro-te que, em chegando a um castelo, a primeira coisa de que cuidarei será abastecer-me duma boa reserva.
"— Ah, senhor, como poderemos ir ter a castelos, se nem de pé conseguimos ficar?
"— São os ossos do ofício, meu caro. Muitas vezes nas aventuras acontecem coisas assim. Quando um cavaleiro está a ponto de tornar-se rei ou imperador, zás! ocorre um desastre e lá se vão os sonhos.
"— Queira Deus, senhor, não nos aconteça um desastre fatal antes que eu apanhe a ilha prometida...
"— Sossega, amigo Sancho. Hás de ter a tua ilha. Mas deixemos isto agora e vejamos se Rocinante pode erguer-se, porque desta feita também o pobre cavalo levou a sua dose.
"— E por que não havia de levá-la? Não é ele um cavalo andante? O que me alegra é que meu burrinho não entrou na dança. Lá está o malandro a regalar-se nos capins, sem pensar em coisa nenhuma desta vida.
"— Bem vês, Sancho, que a Fortuna sempre deixa uma porta aberta. Escuta. Na falta de Rocinante, não me pejo de ser carregado pelo teu jumento até onde possa curar-me das minhas feridas. Isto é dos livros. O bom Sileno, aio do deus Baco, entrou na cidade de cem portas (Tebas) montando um jumento. Levanta-te, pois; vai buscar o burro e partamos antes que caia a noite.
"O pobre escudeiro, arrancando vinte ais, trinta suspiros e vários berros de dor, a muito custo conseguiu pôr-se em pé, e lá se foi, a arrastar a perna, para onde estava o burrinho. Trouxe-o. Ajudou em seguida o escangalhado Rocinante a erguer-se nas quatro patas.
"Trabalho maior foi enganchar Dom Quixote sobre o jumento. Ufa! Só o conseguiu depois de tremendo esforço. Amarrou então a rédea de Rocinante à cauda do burro e tomou a frente, puxando-o pela rédea. E lá se foram."