
Escrita por Monteiro Lobato
O Visconde, que não tinha ouvido o começo da história de Dom Quixote, ficou apreensivo.
— Quem é esse doido? — perguntou ele.
— Pois não sabe? — gritou Emília. — É o famoso cavaleiro andante da Mancha, aquele que achatou você.
— Que me achatou? — repetiu o Visconde franzindo a testinha.
— Mas eu não estou achatado.
Emília deu uma gargalhada.
— Achatou o outro corpo que você teve, Visconde. Esse vermelho é novo, botado hoje.
Mas o Visconde não entendia nada. Foi necessário que lhe contassem toda a sua vida anterior, ou antes, a vida anterior do outro sabugo. O caldinho da ciência com que Emília o embebera era só de ciência, não era a memória líquida do passado, de modo que o novo Visconde só sabia leis científicas, e experiências, e astros e átomos, e a distância da Terra à Lua — mas nada se lembrava do seu passado.
— Não se lembra nem daquele pinto que comeu os botões de milho que você trazia no peito? — perguntou Narizinho.
— Não! — respondeu o novo Visconde, com carinha de quem não se lembrava mesmo.
Pedrinho ficou apreensivo. Que história aquela? Tia Nastácia só mudara o corpo do Visconde. A cabeça era a mesma. Seria possível então que o Visconde pensasse com qualquer parte do corpo, em vez de pensar com a cabeça?
— Vovó, a senhora não está estranhando isso? — perguntou o menino. — Não está estranhando que o Visconde não pense com a cabeça?
Dona Benta suspirou.
— Ah, meu filho, tenho visto nesta boa terra tanta gente que não pensa com o cérebro, que não me admiro de a este viscondinho acontecer o mesmo. Tudo é possível neste mundo...
— Continue, vovó — pediu a menina. E Dona Benta continuou:
— Muito bem. Depois daquela tremenda esfrega, Sancho, com muita dificuldade, colocou o amo em cima do burrinho e lá se foi, puxando Rocinante pela rédea. Légua e meia caminharam assim, até que surgiu uma estalagem, logo avaliada pelo fidalgo como castelo, apesar da opinião em contrário de Sancho. Inda estavam a disputar sobre esse ponto quando chegaram. O estalajadeiro franziu a testa, ao ver aquele fantasma vestido de ferragens, arcado sobre o burrinho, perguntou a Sancho quem era e o que queria.
"— Nada de grave — respondeu Sancho. — Trata-se dum ilustríssimo cavaleiro andante que rolou por um despenhadeiro abaixo e ficou mal das costelas. Com repouso e tratamento fica logo ótimo.
"A mulher do estalajadeiro, uma excelente criatura, acudiu logo, acompanhada duma servente asturiana bem mal-ajambrada. Feia até ali, coitadinha. Cabeça chata, carão mais largo que comprido, um olho vesgo, outro vermelho. Meio corcunda e quase anã — e sujíssima, pois nunca despegava do fogão. Maritornes era o seu nome.
"Ajudada pela Maritornes, a estalajadeira arranjou uma cama composta de três tábuas toscas sobre dois bancos cambaios, duma esteira velha e duns lençóis encardidíssimos. Ali foi acomodado o grande herói da Mancha, depois de bem emplastrado de cataplasmas e unguentos caseiros.
"— Senhora — disse o escudeiro enquanto a mulher fazia os curativos —, não grude nele todos os emplastros porque também eu estou precisadíssimo de alguns.
"— Caiu no buraco também? — indagou a boa criatura.
"— Não — disse Sancho; — mas ao ver meu amo rolar pelo despenhadeiro, senti tal choque que fiquei todo quebrado por dentro.
"— E qual é o nome do doente? — quis saber Maritornes.
"— Dom Quixote de Ia Mancha, o mais valente e nobre de todos os cavaleiros andantes, passados, presentes e futuros — respondeu Sancho.
"— E que coisa é essa de cavaleiro andante? — perguntou a moça.
"— É um traste de ferro que está sempre em véspera de ser imperador ou de ser moído a pancadas.
"Dom Quixote, que ouvira a pergunta da esfregona, não apanhou a excelente definição de Sancho; do contrário não teria metido o bedelho na conversa, dizendo:
"— Senhoras castelãs, não foi desventurado o acaso que me trouxe ao vosso esplêndido castelo. O meu escudeiro dir-vos-á quem sou, já que a mim não me fica bem gabar-me. Limito-me a agradecer-vos tantos e tão finos obséquios, dos quais me lembrarei eternamente.
"Castelãs, castelo! Eram palavras que a estalajadeira e a esfregona pela primeira vez na vida ouviam, e daí não as entenderem. Mas entenderam muito bem as palavras de agradecimento; sorriram satisfeitas e depois de muitas mesuras se retiraram.
"No celeiro, onde haviam posto o esmoído herói, estava um amontoado de selas e mantas, dum arrieiro que também se hospedara na estalagem e ia dormir naquele mesmo cômodo. Como o arrieiro estivesse por fora, Sancho houve por bem aproveitar-se daquela tralha, para com ela ajeitar uma cama dez vezes melhor que a de tábua onde gemia o senhor seu amo. Arrumou-a, deitou-se, e incontinenti ferrou no sono.
"Dom Quixote, porém, cuja cabeça era um perpétuo vulcão de aventuras e encantamentos, conservou-se de olhos abertos, como uma lebre. Reinava o silêncio na semiescuridão apenas quebrada pela fumarenta lâmpada de óleo que ardia pendente duma trave. O herói sonhava acordado com a sua sem-par DulcinEia. Enquanto isso o arrieiro que andava por fora, tendo acabado de tratar dos seus animais, recolheu-se ao celeiro para dormir. Entrou na ponta dos pés para não acordar o doente que sabia estar lá.
"Mas a Dom Quixote o vulto do arrieiro representou-se como o próprio encantador Freston, seu inimigo, que ali vinha para atacá-lo — e sentou-se na cama, preparando-se, apesar das dores, para agarrar o cruel inimigo. Quando o arrieiro passa rente à sua cama, dois braços magros o ferram, enquanto uma voz triunfal estruge:
"— Agarrei-te, malvado! És meu prisioneiro!
"Surpreendido, o arrieiro defende-se. Assenta a murraça nos queixos de Dom Quixote. Trava luta. Sobe à cama e põe-se a pisá-lo aos pés, como os fabricantes de vinho pisam a uva. As tábuas partem-se. Vem tudo por terra. A coisa virou um bolo de cavaleiro andante, arrieiro, pontas de tábuas e bancos partidos, a dançar a sarabanda louca do soco vai, vai pontapé, tome cabeçada, tudo em meio de grande estrondo.
"Por fim o arrieiro desembaraça-se das mãos que o haviam agarrado e, furiosíssimo ainda, dirige-se para o canto onde deixara as mantas. Depara em cima delas um corpo gordo, a roncar. O arrieiro não indaga, nem discute. Vai fincando socos e pontapés naquela massa adiposa. Sancho senta-se estremunhado, julgando ser pesadelo — e engalfinham-se os dois.
"Atraído pela barulheira, acode o dono da estalagem de lanterna em punho e tenta separar os combatentes. Leva um coice. A luz apaga-se e a luta prossegue feroz no escuro.
"Em outro cômodo do albergue estava dormindo um quadrilheiro da Santa Irmandade (que era como se chamava a polícia da Espanha naquele tempo). O quadrilheiro acorda. Ergue-se. Atenta no rumor e resolve intervir. Toma da vara (que era o seu sinal de autoridade) e da lata onde trazia os seus títulos e vai, às apalpadelas, para o celeiro donde vinham os gritos.
"— Aqui del-rei e da Santa Irmandade! — berra ele, com voz de trovão.
"Na penumbra do recinto entrevê um vulto deitado por terra, em meio a destroços de cama. Avança para o vulto. Agarra-o pela barba e, percebendo que não se mexe, grita:
"— Fechem a porta! Mataram aqui um homem!
"Essas palavras assustam os outros. Cessa a luta entre Sancho e o arrieiro. O dono da casa esgueira-se para o seu quarto na ponta dos pés. O arrieiro deita-se e finge dormir. O quadrilheiro pede luz para poder atuar como representante da lei. Ao ouvir isso, o estalajadeiro, que se ia retirando, apaga a lamparina da trave e deixa tudo imerso em profunda escuridão. O único remédio que o quadrilheiro viu foi reacender o fogo da chaminé — e meia hora lá passou assoprando as brasas.
"Enquanto isso Dom Quixote volta do seu desmaio e exala uma série de dolorosíssimos suspiros, ao fim dos quais exclama com voz débil:
"— Amigo Sancho, dormes? Dormes, Sancho amigo?
"— Dormir?! — responde Sancho. — Como pregar olho num inferno destes, acometido por cem mil diabos? Houve um que me esmoeu a socos e me tomou a cama tão gostosa.
"— Assim é — disse Dom Quixote. — O castelo está encantado. Também a mim me moeu a pancadas o infame Freston.
"Nisto reaparece o quadrilheiro, com a lanterna acesa. Sancho assusta-se.
"— Ah, senhor! Não será esse que aí vem o bruxo Freston, que volta de lanterna acesa para ver se ainda nos resta algum osso inteiro?
"O homem da lei espantou-se de, em vez dum defunto, encontrar dois homens vivos a cochicharem entre si. Chega-se a Dom Quixote e indaga:
"— Então, meu bom homem, como vai isso?
"— Insolente — exclama o herói da Mancha. — É assim, então, que lá em tua infame terra se fala aos ilustríssimos cavaleiros andantes?
"O esbirro enfureceu-se e, jogando com a lanterna à cara do ex-defunto, afastou-se, rosnando mil desaforos.
"— Bem te disse eu, amigo Sancho — filosofou o herói da Mancha. — Bem te disse que esse era o meu implacável e feroz inimigo Freston. Estás convencido? Ergue-te, Sancho, e vai pedir ao governador do castelo um pouco de azeite, vinho, sal e alecrim, com que eu prepare o excelente bálsamo de Ferrabrás. Com ele sararemos num abrir e fechar de olhos.
"Sancho levanta-se para cumprir a ordem e sai às apalpadelas; tropeça aqui, tropeça acolá, até que esbarra no quadrilheiro que tinha ficado a escutar pelo vão da porta. Toma-o pelo dono da casa.
"— Ah, senhor! Por quem é, tenha a bondade de dar-me um pouco de sal, alecrim, azeite e vinho, para que possa curar-se um dos melhores cavaleiros andantes do mundo, ferido gravemente pelo bruxo Freston.
"Ouvindo tais palavras, para ele sem sentido, o quadrilheiro vê logo que se tratava de loucos. Não impediu, porém, que Sancho fosse em procura do estalajadeiro e lhe pedisse as drogas necessárias.
"Dom Quixote pegou os ingredientes e misturou-os a seu jeito; depois ordenou ao escudeiro que levasse a mistura ao fogo e a fervesse, despejando tudo numa garrafa. Sancho cumpriu as ordens à risca e, pronta a garrafada, o herói da Mancha batizou-a com uns padre-nossos, salves e credos ditos com trejeitos mágicos. E impacientíssimo que estava para provar a virtude do maravilhoso bálsamo, bebeu quase o conteúdo inteiro da garrafa.
"A ação não podia ser mais rápida. Vomitou com a fúria de quem está vomitando a alma e as tripas. Sobreveio-lhe logo uma fraqueza e um suor abundantíssimo, que o fez cair na cama e dormir horas e horas a fio. Quando acordou sentiu-se quase bom. Ergueu-se. Experimentou os músculos. Ótimo tudo. Podia novamente meter-se em aventuras.
"Boquiaberto ante o maravilhoso milagre, Sancho pediu a Dom Quixote que lhe desse o resto da garrafada. Mas quando despejou no bucho a nojenta droga, quase levou a breca. Vieram-lhe cólicas tremendas, que o fizeram rolar pelo chão aos berros. Sancho rogou mil pragas contra o bálsamo e mais o desalmado que inventara aquela receita.
"— Amigo Sancho — disse calmamente Dom Quixote —, não sabes por que o bálsamo maravilhoso produziu em ti efeito contrário ao operado em mim? É que não és cavaleiro andante. O efeito benéfico só se opera nos que foram armados cavaleiros.
"— E por que então Vossa Senhoria não mo disse antes? Não estaria eu agora sofrendo o que sofro — bradou Sancho, e continuou a torcer-se nas eólicas, que só uma hora depois serenaram.
"Sentindo-se vigoroso e alegrinho, Dom Quixote tratou de safar-se dali em procura de novas aventuras. Foi ele mesmo selar Rocinante e o burro, sobre o qual colocou o descorado e gemebundo Sancho. Montou e, à porta da estalagem, disse para o estalajadeiro e mais vinte pessoas ali presentes:
"— Senhor castelão, jamais esquecerei a vossa generosa cortesia. Se tendes algum serviço a reclamar de mim, juro pela ordem da cavalaria andante que o satisfarei incontinenti.
"— Eu, senhor cavaleiro — disse o homem —, só quero que Vossa Senhoria pague a conta da sua dormida nesta estalagem.
"— Estalagem? — repetiu Dom Quixote admirado. — Pois então isto é uma estalagem?
"— Em carne e osso, meu senhor.
"— Coisa estranha! — exclama Dom Quixote. — Pareceu-me desde o começo um castelo magnífico. Mas, seja lá o que for, castelo ou espelunca, as regras da cavalaria opõem-se a que eu pague hospedagens. Estalajadeiros e castelões são por igual obrigados a receber gratuitamente os cavaleiros andantes, em vista dos trabalhos sem conta que eles padecem por amor ao gênero humano.
"— Eu nada tenho com essas regras da cavalaria — tornou o estalajadeiro. — Tenho com as regras do meu negócio. Há uma conta devida. Quero que Vossa Senhoria a pague.
"— Você, grande patife, além de mau estalajadeiro, é um perfeito sandeu — replicou Dom Quixote — e sem mais picou Rocinante, pondo-se ao largo, sem olhar para trás e, pois, sem ver se o escudeiro o seguia.
"Escapando-lhe assim o cavaleiro, o dono da estalagem pensou em Sancho. Se o amo não paga, o servidor pagaria — e foi em busca do pobre Sancho. Ora, Sancho era um escudeiro convencido da cavalaria e dos mandamentos da ordem da cavalaria, de modo que o que fez foi repetir todas as palavras do amo. Infelizmente estavam na estalagem uns moços de Sevilha e Córdova, amigos da pândega, os quais resolveram tirar partido do incidente. Correram para Sancho e o desmontaram do burrinho.
"— Vamos manteá-lo — lembrou um.
"Boa ideia! Correm em busca dum grosso cobertor, que seguram pelas pontas. Jogam Sancho dentro e lá começam — Upa! Para cima! Upa! Outra vez! Upa! Mais uma!... Era o jogo da peteca! Sancho berra que nem um possesso. Implora. Chora. E a rapaziada — Upa! Upa! Upa!...
"Dom Quixote, de longe, ouve os gritos. Reconhece a voz e regressa de galope para salvar o escudeiro. Mas dá com a porta do albergue trancada. Procura outra. Não acha. E fica do lado de fora a ver a manteação do pobre escudeiro no pátio. Havia um trecho de muro que lhe tirava a vista da cena, mas por cima do muro via compassadamente aparecer Sancho, qual peteca, logo depois de cada upa. E a coisa foi assim até que os rapazes se cansaram.
"Que esfrega! Sancho, completamente moído, foi a custo que montou novamente no burrinho. Suara tanto que ficara completamente seco por dentro. Pediu logo de beber. Maritornes trouxe-lhe uma cuia d'água. Sancho fez careta. Queria vinho. Veio vinho. No momento de bebê-lo ouve um berro de Dom Quixote lá fora:
"— Sancho! Sancho! Não bebas esse pérfido licor, porque te matará! Tenho aqui comigo o maravilhoso bálsamo de Ferrabrás, que te curará num relance — e por cima do muro mostrou-lhe a garrafa.
"Mas Sancho já conhecia a droga.
"— Guarde lá Vossa Senhoria esse negregado bálsamo. Esqueceu, então, que isso é droga só para cavaleiros andantes? — e despejou nas tripas a vinhaça que Maritornes lhe dera.
"Os moços abriram a porta do pátio e o espantaram dali, ficando o estalajadeiro com os alforjes, a título de penhor."