Dom Quixote das Crianças

Escrita por Monteiro Lobato

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Capítulo 13


Combate com os carneiros

 

— Pobre Sancho! — exclamou Narizinho. — É possível que ainda pegue a ilha que Dom Quixote lhe prometeu — mas eu não queria uma ilha, nem que fosse a de Madagascar, por esse preço.

— Pois eu queria — contrariou a boneca.

— Está claro. Criaturas de pano, sem costelas, podem ser petecadas a vida inteira que não dói, nem quebra nada. Mas o pobre Sancho, apesar de gordinho, já devia andar com as costelas em pandarecos. Que adianta uma ilha para um homem descostelado?

O Visconde interveio corri a sua ciência.

— Isso de quebrar costelas não tem muita importância — disse ele. — Elas soldam-se. Muito mais perigoso é quebrar o crânio.

— Por quê? Crânio também solda. Todo osso solda — objetou Pedrinho.

— Sim, mas quando o crânio se quebra quase sempre a quebradura do osso espeta os miolos e o paciente fica de cérebro transtornado. Não se pode mexer no cérebro humano. Aquilo tem um tal arranjo, que qualquer desarranjinho provoca doenças horríveis — loucuras, perda de memória, mil coisas. A maior maravilha que existe é o cérebro.

— É verdade — concordou Emília. — Tudo quanto há na Terra, feito pelos homens, sai dessa maravilha — as guerras, os crimes, as maluquices...

— Isso também não, Emília — disse Pedrinho. — Sai o mau e também o bom. Saem as invenções, saem as obras de arte, os livros como este...

Tia Nastácia entrou nesse momento com uma peneira de pipocas.

— Saem também pipocas! — gritou Narizinho. — Viva o cérebro de Tia Nastácia!

— Viva! Viva! — gritaram todos.

Enquanto comiam as salgadinhas pipocas de Tia Nastácia, Dona Benta prosseguiu.

— Sancho — disse ela — retirou-se da estalagem moidíssimo e embezerradíssimo. Para acalmá-lo, Dom Quixote tentou provar que tudo não passava de picuinhas e malvadezas dos tais mágicos encantadores. Mas Sancho já estava achando aquilo excessivo.

"— Qual, meu senhor, o melhor é voltarmos para casa. O sosseguinho da família vale todos os impérios deste mundo.

"Nesse momento avistaram ao longe uma poeirada. Dom Quixote entreparou e firmou a vista.

"— Amigo Sancho — diz ele —, parece que é chegado o meu grande dia de glória. Estás vendo acolá aquele turbilhão de pó? Pois é um tremendo exército em marcha. Repara!... À esquerda começa a levantar-se outra nuvem de pó. Há de ser o exército contrário. Vão chocar-se...

"Os dois exércitos não passavam de dois rebanhos de carneiros. Sancho de modo nenhum podia enganar-se tomando carneiros como homens de guerra; mas com tal calor e certeza seu amo afirmava aquilo, que ele duvidou de si próprio e admitiu que realmente podiam ser dois exércitos.

"— Eia, meu Sancho! — exclamou o herói. — Subamos àquele morrote para vermos melhor e dir-te-ei logo que exércitos são esses e quem os comanda.

"Subiram ao morrote. Dom Quixote olhou, olhou e disse:

"— O da esquerda pertence ao Imperador Alifanfarrão e o da direita ao Rei Pentapolim, seu poderoso inimigo. O maometano Alifanfarrão quer impor suas malditas crenças ao Rei Pentapolim, que é um fiel seguidor de Cristo. Logo, tenho de tomar o partido deste último e juntamente com ele atacar os infiéis.

"Mas Sancho, que não via nada de nada de tudo aquilo, ousou dizer:

"— Oh, senhor! Vossa Senhoria está a sonhar. Não vejo Alifanfarrão nem Pentapolim nenhum — nem, a falar verdade, nenhum exército. Só distingo ovelhas...

"— Como? — exclamou Dom Quixote. — Pois não ouves o relincho dos cavalos e o toque das cometas?

"— Não ouço nada do que V. Sa. diz. Ouço mês de carneiros, só isso.

"Dom Quixote sorriu com desprezo.

"— És um covarde, uma galinha-d'angola que não merece tomar parte na luta. Fica por aqui como espectador. Verás meu braço fortíssimo decidir da peleja num relance.

"Disse e cravou as rosetas em Rocinante — e partiu na volada, de lança baixa, veloz como um raio, na direção dos dois exércitos. Sancho ainda tentou detê-lo, a berros:

"— Senhor, senhor! Pare! Volte! Não são mouros nada, nem gigantes, nem exércitos. Simples ovelhas, e se Vossa Senhoria mata algumas teremos de pagá-las à custa dos nossos lombos.

"O herói a nada atendia. Galopava num verdadeiro delírio.

"— Sus! Cavaleiros que combateis sob o pendão do valoroso Pentapolim, segui-me! Num ápice destroçarei as hostes do infame Alifanfarrão.

"Chega ao rebanho. Entra por ele com ímpeto, trespassando com a lança os pacíficos animais assustados e um, e dois, e três e quatro… Os pastores acodem em defesa. Metem pedras nas fundas, e iniciam o bombardeio do herói. Dom Quixote prossegue no espetamento das ovelhas, aos berros:

"— Onde estás, onde te escondes, ó soberbo Alifanfarrão? Vem medir-te comigo em combate singular. Desafio-te sozinho!

"Mas um dos projéteis o apanha pelo flanco, fazendo o herói da Mancha desferir um grito de dor — e parar para um gole de bálsamo. Quando ia emborcando a garrafa, uma pedra a apanha e a reduz a cacos. Logo a seguir, outra acerta na boca do cavaleiro, levando-lhe vários dentes. Terceira estropia-lhe uma das mãos. Quarta acerta-lhe na têmpora e o faz cair, desmaiado.

"Os pastores rodeiam-no e, julgando que o tivessem matado, fogem dali com a carneirada, levando às costas as sete ou oito ovelhas vítimas dos lançaços... Lá no topo da colina Sancho arrepela as barbas e maldiz a hora em que, por causa dum raio de ilha, se meteu pelo mundo como escudeiro de tal louco. Ao vê-lo cair, corre em seu socorro, bradando:

"— Eu não disse? Eu não disse que eram ovelhas, Senhor Dom Quixote? Ora, dá-se...

"Mas o desastrado cavaleiro andante gemia por terra na cantiga de sempre:

"— Maldito encantador Freston! Mais uma vez me trocou tudo. Transformou dois poderosos exércitos num vil rebanho de ovelhas. Infame estratagema. Ai, amigo Sancho! Aproxima-te e cura-me estas feridas. Estou em cacos.

"— Eu bem disse. Eu bem avisei. Teimou, não é? Pois agora é aguentar. E sabe o que mais? Os alforjes com os fios e o unguento lá ficaram de penhor na maldita estalagem. Estamos a nenhum.

"Sancho desespera-se, fala em voltar para a aldeia, em desistir de tudo, até da ilha.

"— Sancho, Sancho — gemeu Dom Quixote —, é preciso haver paciência. O mal e o bem não são eternos. Nem um nem outro duram muito. E nunca estamos mais próximos da vitória do que quando tudo parece perdido.

"— Perdoe-me Vossa Senhoria — disse Sancho em tom azedo — mas Vossa Senhoria me parece mais talhado para pregador do que para cavaleiro andante. O caso, porém, é que os alforjes lá ficaram e o que nos resta a fazer são cruzes na boca.

"— O Altíssimo, que alimenta as aves e os insetos, não nos faltará com socorro e alimento.

"— Só se for com essas ervas que Vossa Senhoria diz conhecer, mas eu cá por mim bem que preferia ser reconfortado com um bom pedaço de pão com queijo. Não nasci comedor de ervas.

"— Tudo se há de remediar no fim da jornada. Toma a dianteira e guia-me. Ficas livre de escolher o ponto de pouso.

"Com muita dificuldade, Dom Quixote montou e lá partiram. Uma coisa amofinava a sério o nosso herói: ter deixado no campo de luta alguns dos seus melhores dentes.

"— Boca sem dentes é moinho sem mó — murmurou de si para si várias vezes.

"Para tirá-lo da tristeza, Sancho disse:

"— E por falar, meu senhor, quem é o tal Mambrino a quem Vossa Senhoria se refere tanto?

"A fisionomia do herói da Mancha expandiu-se.

"— Mambrino, amigo Sancho, foi um mouro possuidor dum elmo encantado. Um dia perdeu-o para Sacripante, depois de tremenda luta.

"— Era realmente precioso o tal elmo?

"— Tão precioso que desde já fiz voto de combater mortalmente o cavaleiro que esteja na posse dele. Meu grande sonho é conquistar o elmo de Mambrino.

"Nestas e outras práticas passaram a tarde. Veio a noite. A fome ia-se tornando intensa. Cada vez que se lembrava dos alforjes perdidos, Sancho arrancava um suspiro. E nada de avistarem sombra de moradia humana. Por fim, quando a escuridão já era completa, distinguiram ao longe uma luzinha. Casa não era, pois a luz se movia — vinha se aproximando. E não uma só — várias. Sancho pôs-se a tremer, e também alguns fios dos cabelos de Dom Quixote se puseram de pé. Mas o herói dominou-se.

"— Amigo Sancho — disse ele —, vamos ter uma aventura tremendíssima! Havemos que apurar toda a energia da nossa alma e toda a força do nosso braço.

"Recuam os dois para uma das margens do caminho, Sancho atrás do cavaleiro. Aquilo lhes parece avejões, abantesmas. Cerca de vinte criaturas a cavalo. Vultos segurando tochas e rosnando em voz surda palavras fúnebres. Atrás vinha uma liteira negra, seguida de seis cavaleiros de luto fechado. A estranha comitiva deixou Sancho com as pernas moles, e também Dom Quixote bambeou um pouco. Por um momento só. As histórias lidas nos livros vieram-lhe à cabeça e ele admitiu que talvez se tratasse dum cavaleiro morto, ou traiçoeiramente ferido, crime que lhe competia indagar. Assim que essa ideia o dominou, a belicosidade lhe volta. Firma na mão a lança e vai plantar-se no meio do caminho. — Alto! — gritou com voz de mando. — Dizei-me já quem sois, donde vindes e para onde ides — e o que levais nessa liteira. Tenho comigo que sois traidores.

— A nossa pressa é grande — respondeu um dos homens a cavalo — e não há tempo para satisfazer a tantas perguntas.

"— Atrevido! — exclamou Dom Quixote. — Já que não queres responder, defende-te! — e avançou.

"A mula em que vinha o tal homem assusta-se e dá com ele em terra. Dom Quixote arroja-se contra o segundo e também o derruba com um tranco de lança. Ataca o terceiro. Vendo aquilo, os demais deitam a fugir, apavorados.

"— Vitória! Vitória! — berra o cavaleiro da Mancha.

"— Vitória! Vitória! — repete Sancho, num entusiasmo louco, tão afeito andava ele a constantes derrotas.

"O primeiro homem ainda estava no chão, com a tocha acesa ao lado. Dom Quixote apeia-se e corre a pôr-lhe a ponta da espada na garganta, intimando-o a render-se.

"— Mais que rendido estou eu — geme o infeliz — visto que nem mexer-me posso. Tenho a perna quebrada. Senhor, se sois bom cristão não me mateis. Será um sacrilégio cometido contra um pobre sacerdote.

"— Se Vossa Senhoria é sacerdote, que anda fazendo por aqui? — interpelou o fidalgo.

"— Coisas do meu destino — respondeu o padre — ou antes do meu dever. Eu com mais onze clérigos vínhamos acompanhando o corpo dum velho fidalgo falecido em Baeça, o qual ordenou que o enterrassem em Segóvia, sua pátria. Eis tudo.

"— Quem matou esse velho fidalgo? — quis saber o herói da Mancha.

"— Foi Deus, com uma febre maligna — disse o padre.

"— Bom, nesse caso não sou obrigado a vingar a sua morte. Declaro, porém, a Vossa Reverendíssima que me chamo Dom Quixote de Ia Mancha, cavaleiro andante que corre o mundo para corrigir agravos.

"— Tomara eu, senhor cavaleiro, que Vossa Senhoria me corrigisse esta perna quebrada — geme o sacerdote.

"— Isso não está em mim e o que está feito, feito está. A culpa cabe a Vossa Reverendíssima e a seus companheiros, que se metem a caminhar de noite, vestidos de negro, com tochas acesas, formando um grupo que lembra logo coisa de Satanás.

"— Confesso a nossa culpa — volveu o padre — mas ajude-me Vossa Senhoria a retirar esta perna de sob a pata da mula, que isso me faz doer muito.

"Dom Quixote chama o escudeiro para acudir o desgraçado, mas Sancho não vem. Está ocupadíssimo em remexer numa grande cesta de comestíveis que os clérigos abandonaram na luta. Tira dela o conteúdo e o aloja em dois sacos improvisados que arruma em cima do burrinho.

"Só depois é que corre a atender.

"— Impossível, senhor, fazer duas coisas ao mesmo tempo. Aqui estou.

"Sancho ergue o padre e encarapita-o sobre a mula. E diz:

"— Se os outros clérigos perguntarem a Vossa Reverendíssima quem o deixou nesse estado, responda que foi o famosíssimo Dom Quixote de Ia Mancha, o Cavaleiro da Triste Figura.

"O padre fez que sim e a gemer lá se foi."

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