
Escrita por Monteiro Lobato
— O que eu gosto em Dom Quixote — observou Pedrinho — é que ele não respeita cara. Medo não é com ele. Seja clérigo, seja moinho de vento, seja arrieiro, ele vai de lança e espada em cima, como se fossem carneiros.
— Valente ele é — concordou Narizinho. — Pena que não vença todas as vezes. O tal Cervantes era mau. Judia muito desse personagem.
— Isso é para equilibrar outras histórias de cavaleiros andantes — explicou Dona Benta — nas quais os heróis venciam sempre. Havemos mais tarde de ler algumas.
— Como a dos Doze Pares de França — observou Pedrinho. — Aquilo é que é dar pancada. O Senhor Roldão e o Senhor Oliveiros, por exemplo, enfrentavam exércitos de trezentos mil mouros e derrotavam-nos. Roldão tinha a célebre espada durindana, ótima para abrir mouros de alto a baixo. Eu, quando leio a história dos Doze Pares de França, fico de cabeça quente — e estou contando uma boa que houve por aqui.
— Conte — disse Dona Benta.
— A senhora promete que não fica zangada comigo?
— Prometo.
— Pois lá vai. Lembra-se daquele milharal que a senhora plantou lá atrás da mangueira da Vaca Mocha?
— Como não hei de lembrar-me? Era um milharal lindo. Estava viçoso, gordo, quase já a soltar as bonecas, quando um malvado qualquer entrou lá e escangalhou tudo...
Pedrinho piscou para Narizinho.
— E a senhora nunca desconfiou de quem teria sido esse malvado, vovó? — perguntou ele.
— Ora quem havia de ser! Algum maluco que passou de noite pela estrada...
— Foi Roldão, vovó! — disse o menino.
— Roldão?!
— Sim, Roldão, o principal dos Doze Pares de França. Roldão encarnou-se em mim e…
Dona Benta arregalou os olhos, assombrada.
— Quer dizer então, Pedrinho, que foi você quem fez aquilo?
— Eu explico tudo, vovó — respondeu o menino. — Foi na semana em que caiu em casa aquele livrinho da história de Carlos Magno e dos Doze Pares de França. Comecei a ler e fui me esquentando, me esquentando, me esquentando, até que não pude mais. Minha cabeça virou, ficou assim como a de Dom Quixote. Convenci-me de que eu era o próprio Roldão. E fui lá no quarto dos badulaques e tirei aquela espada que pertenceu ao velho Tio Encerrabodes, e amolei-a no rebolo, bem amoladinha. E quando a senhora saiu com Tia Nastácia e Narizinho para visitar o compadre Teodorico, ah, que regalo! Corri ao milharal e não vi nenhum pé de milho na minha frente. Só vi mouros! Eram trezentos mil mouros! Ah! Caí em cima deles de espada que foi uma beleza. Destrocei-os completamente. Não ficou um só! Que coisa gostosa...
— Nastácia! — gritou Dona Benta. — Venha ver quem nos escangalhou o milharal. Foi Pedrinho.
Nastácia apareceu, sacudindo a cabeça.
— Eu andava desconfiada, sinhá. Aquela história do maluco que ia passando, aquilo sempre me pareceu uma coisa meio sem jeito. Esse menino, credo!...
— Mas não fui eu, vovó — disse Pedrinho. — Foi Roldão. Ele encarnou-se em mim, juro. Essas coisas acontecem na vida, a senhora sabe.
— Sei, sei. Sei que moro com os maiores maluquinhos deste mundo. Mas continuemos a nossa história de Dom Quixote. Como vocês estão vendo, a loucura de Dom Quixote é coisa mais comum do que se pensa. O que Pedrinho fez não passa duma quixotada. Quem se encarnou em você não foi Roldão — foi o herói da Mancha...
E Dona Benta continuou:
— Aquela história de Sancho lhe chamar Cavaleiro da Triste Figura ficou a parafusar na cabeça do herói. Por fim, ele não resistiu e disse:
"— Ora, vem cá, Sancho. Que história é essa de Cavaleiro da Triste Figura?
"— Ah, senhor! A coisa foi que, ao ver o rosto de Vossa Senhoria à luz do archote, pareceu-me ele tão esquisito, tão melancólico...
"— Meu Sancho — torna-o herói —, estás na aldeia e não vês as casas. Fica sabendo que tiveste uma pura inspiração. Os cavaleiros andantes devem ter alcunhas assim — e de agora em diante adotarei esse cognome e mandarei pintar em meu escudo uma bem estranha e triste figura.
"— Isso é escusado, senhor! — torna Sancho. — Basta que Vossa Senhoria apareça ao natural e toda gente dirá logo: 'Eis o Cavaleiro da Triste Figura'.
"Dom Quixote achou graça; riu-se. Em seguida retomaram a marcha até onde uma suave colina os convidou ao repouso. Sancho abriu os sacos e foi tirando os petiscos tomados aos clérigos, gente que costuma passar bem. Comeram com vontade. Mas não havia vinho e quando não há vinho água serve. Dom Quixote e Sancho olharam em torno, em procura d'alguma fonte. Perto dali a vegetação mostrava-se mais viçosa — sinal de umidade do solo. Talvez passasse por lá algum arroio.
"Assim raciocinando, levantam-se os dois, tomam pelas rédeas ao Rocinante e ao burro e encaminham-se para lá. A noite era de lua — uma lua que Dom Quixote mentalmente comparou com a Dulcineia.
"Súbito, começaram a ouvir um rumor. À medida que avançam, o ruído cresce. Talvez viesse de alguma torrentezinha. Mas perceberam logo não se tratar disso. Não era só ruído de água. Havia algo mais. Sancho assusta-se. Suas pernas entram a bambear. Misturados ao rumor da água que se despejava de bica, vinham-lhes sons de pancadas em compasso, e retinidos de ferros.
"O sítio era de grandes árvores que o vento agitava. Os golpes surdos, os retinidos de ferro, o escachoar da água e a semiescuridão da noite, tudo isso enchia o coração de Sancho do mais honesto medo. Já o valente Dom Quixote não se alterou. Montou no corcel, enfiou no braço o escudo e, brandindo a lança, disse:
"— Amigo Sancho, o céu quis que eu nascesse para ressuscitar a Idade de Ouro neste século degenerado, e o destino reservou-me os maiores feitos. Por mais árdua que seja a aventura que se apresenta, não a evitarei. Arrocha a cilha de Rocinante e fica neste ponto à minha espera. Se eu não voltar desta aventura, retornarás à aldeia e dirás a todos que teu amo pereceu como os verdadeiros heróis perecem: na luta!
"Ouvindo tais palavras, Sancho rompeu em choro de criança.
"— Ai, meu querido amo! Para que há de Vossa Senhoria meter-se em tais embrulhos? Já não está de sobejo famoso com tantas proezas realizadas? Se meu amo perece, adeus minha ilha! Lembre-se, meu senhor, que tenho mulher e filhos e que sem a ilha ficarão todos desamparados. Ah, senhor, espere pelo menos que amanheça. De dia os perigos são menores.
"— De dia ou de noite, tudo é o mesmo para o Cavaleiro da Triste Figura — respondeu o herói — e ninguém dirá que por ter sido noite deixou Dom Quixote de cumprir o seu dever. O céu me ajudará e cuidará de ti caso eu pereça. Vamos. Aperta a cilha de Rocinante e espera-me neste ponto. Voltarei vencedor.
"Vendo que nada deteria seu amo, Sancho empregou a astúcia para fazê-lo pelo menos esperar que amanhecesse. Fingiu que apertava a cilha de Rocinante, mas de fato peou o corcel das patas de trás, de modo que quando Dom Quixote deu esporas, em vez de partir no galope o cavalo pôs-se a pererecar.
"— Vossa Senhoria está vendo — disse o escudeiro radiante — que o céu me escutou e está impedindo que Vossa Senhoria me abandone. O rocim não obedece à espora.
"Dom Quixote danou com o cavalo; esporeou-o com vontade — mas Rocinante fazia tudo, menos sair do lugar. Por fim o herói desistiu.
"— Bem. Nesse caso esperarei pela aurora — e suspirou.
"— Sem dormir? — indagou o escudeiro.
"— Sem dormir, está claro — respondeu o herói. — Dorme tu, meu Sancho, que para isso nasceste. Eu ficarei a dialogar com os meus altos pensamentos.
"— Não se agaste, meu amo. Não tive tenção de o molestar.
"O estranho barulho ao longe continuava, e o medo de Sancho crescia. E tanto cresceu que... que ele fez sem querer uma coisa que não pôde dizer.
"— Que é isso, Sancho? Que houve? — perguntou Dom Quixote, tapando o nariz.
"— A culpa não é minha, senhor. É de quem me trouxe para este horrível deserto, cheio de rumores pavorosos...
"Dom Quixote não quis ouvir mais. Ordenou a Sancho que se afastasse — e pela primeira vez desde a saída da aldeia, o fiel escudeiro teve de dormir a cinquenta passos do seu amo.
"Pela madrugada Sancho levantou-se e, cautelosamente, para não ser pilhado, desfez o laço que peava as patas de Rocinante, o qual, ao ver-se livre daquilo, deu pulos de alegria. Dom Quixote achou bom agouro e tratou de montar, para recomeço da nova aventura. Despede-se outra vez de Sancho, e diz que em seu testamento já estava ele devidamente contemplado, de modo que, ainda que não viesse a ilha, seu futuro seria bom. Sancho enterneceu-se a fundo; chorou e jurou que jamais deixaria um amo tão excelente. O enternecimento do escudeiro também enterneceu o herói.
"Imediatamente, porém, Dom Quixote reagiu contra a crise de sentimentalismo e belicosamente marchou para o sítio donde vinham as pancadas surdas. Sancho o seguiu a pé, puxando o burrinho. Ao alcançarem o tope da colina, avistam lá embaixo uma construção rústica, junto a altos rochedos, pelos quais se despejava uma torrente. Era daquele ponto que vinham as pancadas surdas.
"Rocinante assustou-se e empinou. Sancho fez-se amarelo. Mas avançando um pouco mais, descobriu a causa de tudo. Eram pilões de café. Dom Quixote desapontou, e Sancho, de mãos na cintura, rompeu a rir perdidamente — a rir do desapontamento do amo. Exasperado, o herói arrumou-lhe duas tremendas lapadas de lança no lombo.
"— Ah, senhor! Não vê que estou rindo? — diz o escudeiro.
"— Por isso mesmo te castigo — diz Dom Quixote. — Não sou objeto de riso. Podia eu acaso adivinhar que os estrondos fossem de pilões? Supus muito naturalmente serem roncos de gigantes — e se fossem gigantes verias como lindamente eu lhes deceparia as cabeças.
"— Creio piamente — tornou Sancho. — Mas Vossa Senhoria há de confessar que esta aventura foi bem engraçada...
"— Não nego que o fosse, mas um escudeiro não deve nunca faltar ao respeito devido a seu amo — e tu faltaste.
"— Está bem, está bem, senhor. Perdoe-me por esta vez. Em ocasiões semelhantes saberei conter-me.
"— E só assim continuaremos amigos — concluiu Dom Quixote."