Dom Quixote das Crianças

Escrita por Monteiro Lobato

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Capítulo 15


Conquista do elmo de Mambrino, o mais famoso do mundo

 

Estava Dona Benta nesse ponto da história, quando Narizinho se lembrou de perguntar por que razão nos livros velhos se fala tanto em barbeiros.

— Estou com esta pergunta a lhe fazer há muito tempo, vovó. Parece que antigamente os barbeiros eram muito mais importantes do que hoje. Por que isso?

— É, minha filha, que antigamente os barbeiros também funcionavam como médicos. O grande remédio da humanidade, durante muito tempo, foi a sangria — e os barbeiros, além de barbearem os fregueses, também os sangravam quando adoeciam.

— E por que foi esse remédio abandonado? — quis saber Pedrinho.

— Simplesmente porque não curava. A ignorância dos nossos antepassados era maior que a nossa de hoje. Em matéria já de medicina, então, eles praticavam verdadeiros absurdos, como esse de tirar o sangue dos pobres enfermos, como se no sangue estivesse o mal.

— E isso durou muito tempo?

— Durou, meu filho. Tudo que é errado dura muito. A humanidade é bem isso que a Emília vive dizendo. A história da humanidade não passa de história de horrores, estupidez e erros monstruosos. Hoje, por exemplo, olhamos com grande superioridade para os antigos, com dó deles, certos de que nossas ideias são certas e hão de durar sempre. Mas nossos bisnetos rir-se-ão das nossas ideias como nós nos rimos das ideias de nossos bisavós, e os bisnetos dos nossos bisnetos rir-se-ão das ideias dos nossos bisnetos — e assim até o infinito.

— Que maçada ser assim, vovó! — disse Pedrinho. — Eu queria tanto ter certeza absoluta de alguma coisa...

— Eu tenho certeza duma porção de coisas — disse Emília. — Tenho certeza, por exemplo, que Tia Nastácia hoje não vem com pipocas: vem com bolinhos fritos.
O cheiro que vinha da cozinha tornava muito fácil adivinhar aquilo. Tia Nastácia variava sempre a comedoria da noite. Inventava coisas. Um dia, batata-doce assada. Outro dia, pinhão cozido. Outro dia, pipoca. Outro dia, amendoim torrado. Outro dia, cará, inhame ou mandioca. E sempre um café coado na hora que era "da hora", como Narizinho dizia.

Mas antes que viesse o café com bolinhos, Dona Benta contou mais um pedaço das aventuras de Dom Quixote.

"— O céu foi-se cobrindo de nuvens — disse ela. — Começou a chuviscar. Sancho, muito naturalmente, propôs a Dom Quixote que se abrigasse no rancho dos monjolos; mas Dom Quixote havia tomado tal ojeriza àquelas rudes máquinas que recusou — e tocou por diante. Não tinham caminhado nem meia légua, quando apareceu lá longe na estrada um cavaleiro com qualquer coisa amarela na cabeça.

"— Sancho! Sancho! — bradou o herói. — Vês naquele guerreiro, que num ginete ruço se dirige ao nosso encontro, o capacete de ouro que ele traz na cabeça? Pois é o tal elmo de Mambrino que jurei conquistar.

"— Guerreiro, senhor? — exclamou Sancho, firmando a vista. — Pois então Vossa Senhoria toma como guerreiro um homenzinho comum daqueles?

"— Tu tens cataratas nos olhos, amigo Sancho. Afirmo-te e reafirmo-te que é um legítimo guerreiro com o elmo de Mambrino na cabeça. E vou conquistá-lo.

"Disse e investiu contra o homem, de lança enristada. Não era cavaleiro nenhum, como Sancho vira logo. Tratava-se apenas dum pobre barbeiro, que vinha da aldeia próxima para atender a algum freguês suburbano, e como chovesse resguardara a cabeça com a bacia de barbear, comum a todos os barbeiros da época e feita de latão. O coitado, vendo avançar contra si aquele estranhíssimo homem todo recoberto de chapas de ferro e armado de tão medonha lança, não quis saber de histórias. Pulou do burro e fugiu, deixando cair a bacia reluzente.

"— Covarde! — exclamou Dom Quixote. — Só mesmo a fuga te podia salvar Sancho, apeia e pega esse elmo.

"— Oh — exclamou o escudeiro —, está tão novinha que vale bem meia moeda. Parece-me bacia de barbeiro.

"Dom Quixote recebeu a bacia e colocou-a na cabeça, ajeitando-a.

"— Grandíssima cabeça tinha o pagão dono deste capacete! E ainda não está todo ele aqui. Falta-lhe um pedaço.

"Sancho quase disparou na gargalhada; a lembrança do que lhe acontecera no caso dos pilões de café, porém, fê-lo rir-se só por dentro.

"— É provável — continuou Dom Quixote — que este maravilhoso elmo haja caído nas mãos de algum ignorante, o qual, vendo que era de ouro puro, derretesse metade e afeiçoasse o resto sob a forma de bacia de barbeiro. Seja lá como for, mandarei compô-lo, restaurando-lhe a forma primitiva. Ficarei assim com um elmo superior ao que Vulcano fez para Marte.

"Sancho não tirava os olhos do burro abandonado pelo barbeiro.

"— Que faremos do animal, meu senhor? O dono com certeza não vem buscá-lo e o bichinho me parece bom de marcha.

"— As leis da cavalaria — respondeu o herói — não permitem que o vencedor tome o ginete do vencido. Deixa-o, pois, em paz.

"— Que levem a breca as tais leis — resmungou Sancho. — Tenho cá minhas razões para apropriar-me deste burrinho, ou pelo menos trocá-lo pelo meu, que é muito inferior. Poderá Vossa Senhoria informar-me o que dizem as leis da cavalaria sobre a troca de burros e de selas?

"— Nada sei a respeito — respondeu Dom Quixote — mas me parece que enquanto me informo podes trocar as selas. Impossível que as leis da cavalaria se oponham a uma coisa tão inocente.

"Devidamente autorizado, Sancho tirou do burro do barbeiro a sela nova e colocou-a no seu. Ótimo. O cavaleirismo andante começava a render."

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