
Escrita por Monteiro Lobato
— Em seguida — continuou Dona Benta — almoçaram o resto da ceia e puseram-se a caminho, e foram indo, foram indo até que encontraram um grupo de doze galerianos. Vinham conduzidos por cinco homens armados de escopetas e lanças.
"— Olá! — exclamou Sancho. — Temos agora uma leva de forçados.
"— Forçados? — repetiu Dom Quixote. — Não se trata de forçados, meu amigo, e sim de honradíssimos súditos de Sua Majestade, vítimas de alguma cruel violência.
"— Qual nada! — tornou Sancho. — Criminosos e dos bons, visto como foram condenados às galés.
"— Não entendes disto, meu amigo. Aqueles homens estão sendo violentados e a mim cumpre socorrê-los.
"Quando o grupo se aproximou, Dom Quixote inquiriu cortesmente do que parecia o comandante da escolta sobre o motivo de levarem algemados aqueles infelizes.
"— Se Vossa Senhoria os interpelar, eles mesmos darão a resposta.
"Dom Quixote indagou do primeiro sobre o crime que havia cometido.
"— Coisinha de nada — respondeu o galeriano. — Namorei uma canastra de roupas e por isso fui preso e condenado às galés.
"— E tu? — indagou do segundo.
"— Eu vou para as galés por haver cantado na agonia como um canário.
"Como Dom Quixote fizesse de não entender, o comandante lhe explicou que o calceta havia sido posto em tortura, durante a qual confessara muitos furtos.
"O terceiro inquirido parecia mais perigoso que os outros, tão encadeado estava. Dom Quixote informou-se da razão desse rigor.
"— Este miserável — respondeu o guarda — é o mais culpado de todos e por isso foi condenado a dez anos de galés. Talvez Vossa Senhoria já ouvisse falar dele. Chama-se Gines de Passamonte, ou Ginesinho de Parapilha.
"— Alto lá com isso! — protestou o forçado. — Veja como me trata. Meu nome é Gines de Passamonte e dia virá em que eu abra buracos na barriga de quem hoje me chama de Ginesinho de Parapilha.
"E voltando-se para Dom Quixote:
"— Dê-nos Vossa Senhoria alguma chelpa para refrescarmos as vísceras com o suco da vida, e não perca seu tempo em ouvir nossas histórias. Eu comecei a escrever a minha.
"— E não a concluíste?
"— Interrompi-a quando escapei das galés, e, como agora volto, hei de retomar o fio. É nas galés que um homem pode sossegadamente cultivar as belas-letras.
"— Pareces-me um homem de muita agudeza — observou Dom Quixote.
"— E por isso ando pelas prisões. Se fosse um pedaço de asno, certamente que nadaria em ouro.
"— Bem, bem — disse Dom Quixote. — Estou vendo que nenhum destes homens vai para as galés de livre e espontânea vontade, e como cavaleiro andante que sou me vejo na obrigação de libertá-los. Senhores guardas, fazei-me o obséquio de soltá-los, pois do contrário meu vigorosíssimo braço vos forçará a tanto.
"Os guardas abriram a boca.
"— Homessa agora! — exclamou o comandante. — Sabe que mais, amigo? Endireite a bacia na cabeça e vá andando seu caminho. É o melhor.
"— Covarde! Insolente! Patife! — urrou o fidalgo — e, sem dizer água vai, ferra-lhe um lançaço que o estira no chão. Os outros homens investem contra o paladino, mas Sancho ajuda os forçados a escaparem dos ferros e todos se juntam contra os guardas. Gines de Passamonte toma a escopeta do que caíra e aponta ora para um, ora para outro, forçando-os a abalarem dali em fuga. Um bombardeio de pedras os perseguiu ainda por um pedaço.
"A vitória foi das mais completas; Sancho, todavia, apavorou-se com a perspectiva de a Santa Irmandade vir logo tirar vingança daquilo e sugeriu ao cavaleiro que se escondesse nos bosques da serra vizinha. O fidalgo, porém, no meio dos galeotes libertados, não o atendia. Estava a arengar os homens.
"— Senhores, espero que não sejais ingratos e saibais agradecer o serviço que vos prestei. Só uma coisa peço: que chegueis à cidade de Toboso e presenteeis a ilustríssima Senhora Dulcineia com as algemas de que estais livres, dizendo-lhe que esse ato é uma homenagem do Cavaleiro da Triste Figura.
"Os galeotes entreolharam-se.
"— O que Vossa Senhoria pede — respondeu Gines, falando pelo grupo inteiro — é impossível. Se formos a Toboso com estes ferros, a justiça nos apanhará pelo caminho. Contente-se Vossa Senhoria com os agradecimentos que lhe damos.
"— Não aceito desculpas — gritou Dom Quixote, já tomado de cólera. — Ordeno-te, Ginesinho de Parapilha, que, com teus sócios, vás cumprir a penitência de que falei, pois do contrário pico-vos a todos com a espada.
"Aquilo era demais. Gines não aguentou. Saltando para o lado, pôs-se a bombardear o cavaleiro com pedras. Os outros fizeram o mesmo. E tal foi a chuva de balas, que o herói da Mancha rolou por terra. Um dos forçados tirou-lhe da cabeça a bacia e deu-lhe meia dúzia de baciadas no lombo. Outro furtou-lhe o casaco; outro, isto ou aquilo, tanto ao cavaleiro como ao escudeiro — e por um triz não os largaram completamente nus. Feito o que, abalaram.
"Vendo-se tão maltratado em paga do bom serviço que lhes prestara, Dom Quixote murmurou um provérbio popular: Fazer bem a vilões é semear na areia.
"— Já que Vossa Senhoria admite a verdade desse provérbio — tornou Sancho — queira seguir meu prudente conselho: fujamos para o bosque antes que chegue a Santa Irmandade.
"— Fujamos?! Covarde que és! Um cavaleiro não foge nunca.
"— Retiremo-nos, então. Retirada não é fuga, é estratégia. É medida urgente e sábia, quando o inimigo se mostra superior em forças.
"— Bom. Isso já é outra coisa e não vejo razões para não satisfazer teu desejo.
"Cavalgaram os dois e tomaram o rumo dos bosques da serra Morena, por entre os quais se meteram. Ao cair da tarde, sentaram-se à sombra duma árvore para reconfortar o estômago com o que ainda havia de comer; depois dormiram.
"Gines de Passamonte, passando casualmente por ali, viu o burro de Sancho e o furtou. Quando ao acordar o pobre escudeiro percebeu a maroteira, entrou na maior lamúria e choro da sua vida, coisa de comover às próprias pedras.
"— Ó filho querido, meu burrinho amado, nascido em minha casa, brinquedo de meus filhos, encanto de minha mulher, inveja de meus vizinhos, alívio de meus trabalhos! Ó meu burrinho do coração! Perdi-te para sempre e isso me matará de dor...
"Dom Quixote quis consolá-lo e o único jeito foi prometer-lhe três burrinhos, dos seis que ele possuía na aldeia. Era negócio. Sancho enxugou as lágrimas.
"Continuaram a marchar pela floresta. Súbito, o cavaleiro entreparou e com a ponta da lança ergueu qualquer coisa do chão. Uma velha maleta ali perdida. Sancho atirou-se a ela como gato a bofes. Abriu-a com a faca. Havia dentro quatro camisas e outras peças de fino linho, um caderno de notas e um rolo com trinta peças de ouro.
"— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! — exclamou ele radiante, a dar pinotes de alegria. — Isto é que é aventura das verdadeiras. Viva!
"— Deixa-me ver o livrinho — disse Dom Quixote. — Servirá para anotar as minhas proezas. Quanto ao vil metal, podes guardá-lo para ti.
"— Obrigadíssimo, senhor meu amo — respondeu Sancho beijando-lhe a mão. — Este vil metal convém muito à minha vil matéria — e despejou no saco as moedas tilintantes.
"— Como viria parar aqui esta mala? — murmurou Dom Quixote, como falando consigo mesmo.
"— Nada mais claro, meu senhor. Alguém que por aqui passou a perdeu.
"— Tens carradas de razão, Sancho. Há de ser isso mesmo; mas continuemos nossa viagem.
"O aspecto agreste daqueles sítios agradou sumamente Dom Quixote. Parecia-lhe em extremo apropriado para aventuras. À sua memória acudiram mil casos acontecidos em sítios ermos assim. Súbito, veio-lhe uma ideia.
"— Sancho, Sancho — disse ele —, cometi um grande erro libertando os galeotes.
"— Agora é que Vossa Senhoria percebeu isso?
"— Mas tu ignoras, Sancho, que quando um cavaleiro cai numa falta dessas tem de penitenciar-se. Assim fez o famosíssimo Amadis de Gaula, a suprema flor da cavalaria andante. A fim de castigar-se dum erro cometido, retirou-se para um deserto como este e tomou o nome significativo de Tenebroso. Pois vou imitá-lo. Ficarei por aqui fingindo-me de insensato, de desesperado, de louco furioso até que expie cabalmente a minha culpa. Podes desde já considerar-me louco varrido, amigo Sancho.
"— Que lhe faça muito proveito — disse o escudeiro. — Seja Vossa Senhoria o louco que quiser, que eu abalarei para minha casa, a ver a Teresa e os filhos. Tenho já o que lhes mostrar.
"— Pois vai, mas volta dentro de quinze dias, que é quanto durará minha penitência.
"Aquelas paragens impressionavam estranhamente a imaginação do herói da Mancha. Um arroio corria perto. Flores, árvores velhas, pedras musgosas. Ótimo tudo. Dom Quixote apeou-se, desencilhou Rocinante e deu-lhe uma palmada na anca.
"— Concedo-te quinze dias de folga, ó meu nobre corcel, companheiro magnânimo de minhas fadigas sublimes. Vai pastar.
"— Alto com isso, meu amo! Vossa Senhoria bem sabe que me bifaram o burro e que a pé eu não valho nada. Sou gordo. Por isso, tem que me ceder o Rocinante.
"— Não haja dúvida — respondeu Dom Quixote; — mas quero que não partas já. Tens que ficar aqui uns dois dias para veres minhas loucuras!
"— Ah, senhor, já vi tantas...
"— Mas não todas — retorquiu Dom Quixote — e fez uma cabriola de amostra.
"— Basta, basta! — gritou o escudeiro. — Vamos ao que serve. Tenha Vossa Senhoria a bondade de escrever duas linhas numa folha desse caderno, declarando que posso receber os três burrinhos prometidos.
"Sobrinha, quando este papel receberes, darás ao meu escudeiro Sancho Pança três burrinhos dos seis que possuo.
DOM QUIXOTE."
"— Ótimo! Ótimo! — exclamou Sancho, dobrando cuidadosamente o papel. — Vou agora partir montado em Rocinante e espalharei ramos quebrados pelo caminho, de modo a poder voltar quando Vossa Senhoria haja concluído a sua penitência.
"— Amigo Sancho, adeus! — exclamou o herói da Mancha, dando outra cabriola."